No limite da investigação jornalística
 

Francisco de Assis

A investigação jornalística pressupõe a ação de um profissional com espírito destemido, capaz de ir além daquilo que salta à vista. É atividade voltada para a especulação de assuntos de interesse coletivo, mas que, por algum motivo, são encobertos. Por fim, é produção destinada a atender às necessidades da sociedade (sejam elas necessidades de informação nova ou, então, de compreensão de algum fato parcialmente revelado).
Não restam dúvidas, portanto, de que a prática do jornalismo investigativo [2] não é tão simples quanto a apuração de uma matéria cujos fatos estão à disposição do repórter, por meio de fontes pessoais, institucionais ou documentais. Buscar informações não disponíveis é, quase sempre, arriscado e, por isso mesmo, é necessária uma boa dose de cautela para o exercício do ofício.
O que chama a atenção, nesse cenário, é que as empresas jornalísticas parecem nem sempre dar a devida atenção ao profissional que se dedica a esse tipo de atividade, colocando-o em situações de risco, em nome da verdade, ou então, como diz Leandro Fortes (2005), em nome da vaidade. O resultado: profissionais agredidos, machucados e até mesmo mortos por representantes de facções ou grupos criminosos. E tal realidade não é difícil de ser observada. Em junho de 2008, por exemplo, o Brasil acompanhou, pela mídia, o caso dos jornalistas do jornal “O Dia” que foram vítimas de tortura, durante uma investigação a respeito do dia-a-dia de pessoas que vivem sob o domínio de milícias na cidade do Rio de Janeiro.
No caso do Vale do Paraíba, cenário de interesse deste Observatório de Imprensa, um caso semelhante ocorreu no início de outubro deste ano. Sediado em São José dos Campos, o jornal “Valeparaibano” publicou, no dia 2 daquele mês, uma notícia com o seguinte título: “Repórter do ‘vale’ é agredido em S. José”. Tratava-se de uma denúncia a respeito de agressões sofridas pelo jornalista Guilhermo Codazzi da Costa, ao investigar uma suposta casa de jogos no centro daquela cidade. “Uma mulher e dois homens, que teriam envolvimento com a casa de jogos, abordaram o repórter e, mediante imobilização, levaram Costa para uma rua perto do bingo e o agrediram com vários socos nas costas”, relatava um trecho do texto.
Pelo que dizia o texto, o profissional foi deixado no local da apuração pelo carro do jornal, que voltou para buscá-lo somente algum tempo depois. Em casos como este, o mínimo de prudência seria que a viatura que acompanhava o repórter o esperasse para que o mesmo pudesse retornar à redação assim que concluísse seu trabalho, sem ter que ficar esperando, conforme o próprio veículo relatou: “O jornalista foi até uma padaria nas proximidades onde esperaria a chegada do veículo do valeparaibano. No entanto, uma mulher e um homem se aproximaram e perguntaram se ele era jornalista. [...] Sem responder, o repórter ouviu da dupla que ‘ele não deveria se meter no assunto e que as pessoas iam ali jogar porque queriam’. Ambos deixaram a padaria e voltaram com um outro homem, que pediu a mulher que identificasse o jornalista, dizendo para Costa que ele ‘deveria se preocupar mais com sua saúde’” [3].
Solidarizada com a situação, a Associação Paulista de Jornais (APJ) emitiu nota lamentando a “tentativa de intimidação e constrangimento ao trabalho investigativo da imprensa”; o presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Maurício Azêdo, também se manifestou, dizendo que o ocorrido teve a “a clara intenção de impor uma represália ao repórter e ao jornal”; André Freire, diretor regional do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, disse que “os jornalistas continuam sofrendo riscos no Brasil” e complementou sua fala destacando que condena esse tipo de atitude [4].
Diante desses fatos, gostaria, neste espaço, de fazer um questionamento: adianta lamentar? Foram muitos os que lamentaram a morte de Tim Lopes, jornalista da “Rede Globo”, assassinado em 2001, durante uma investigação jornalística sobre exploração sexual de adolescentes e venda de drogas em bailes funk, realizada na favela Vila Cruzeiro, no bairro da Penha, zona norte da capital fluminense [5]. Muitos outros certamente lamentaram o ocorrido com Guilhermo Codazzi da Costa e com outros profissionais que passaram por situações semelhantes. Mas e as empresas jornalísticas? O que elas têm feito para garantir a segurança de seus funcionários? Sinceramente, não sei se a resposta é positiva.
Em seu livro “Jornalismo investigativo”, Leandro Fortes (2005, p. 73) reforça a seguinte idéia: “A disposição pessoal em investigar, por incorrer em riscos, deve ser pautada pelo bom senso e pelo conselho dos amigos, para aqueles que os têm, é claro. A busca enlouquecida pela verdade, por mais digna e respeitável que seja, não pode tomar o lugar da responsabilidade profissional, muito menos expor um repórter à sandice de criminosos”.
Seria necessário, portanto, que os jornais repensassem as condições de trabalho que oferecem aos jornalistas que se dispõem a investigar fatos obscuros. Somente com o devido respaldo é que a imprensa pode atuar com tranqüilidade, sem que outros Tim Lopes venham a morrer em função do trabalho que, por mais nobre que seja, não é mais valioso do que a vida.

Referências
FORTES, L. Jornalismo investigativo. São Paulo: Contexto, 2005.
SEQUEIRA, C. M. Jornalismo investigativo: o fato por trás da notícia. São Paulo: Summus, 2003.

 

Notas

[1] Mestrando em Comunicação Social e especialista em Jornalismo Cultural pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp). Jornalista formado pela Universidade de Taubaté (Unitau), instituição na qual participa do Núcleo de Pesquisa e Estudos em Comunicação (Nupec). Pesquisador do grupo Pensamento Comunicacional Latino-Americano, vinculado à Cátedra Unesco/Metodista de Comunicação para o Desenvolvimento Regional, é editor da revista “Acervo On-line de Mídia Regional” e do “Jornal Intercom”. E-mail: francisco-nupec@uol.com.br
[2] Nestas linhas, o jornalismo investigativo é compreendido como especialidade da profissão, a qual requer métodos e estratégias de trabalho que a diferencia das demais modalidades. Todavia, não se pode deixar de mencionar que alguns profissionais e pesquisadores compreendem que a investigação faz parte da essência do jornalismo e, por isso, todo jornalismo pode ser considerado investigativo. Como exemplo de defensor desta idéia, pode ser citado o nome do colombiano Gabriel García Márquez, que foi taxativo, ao referir-se ao assunto, durante a 52ª Assembléia da Sociedade Interamericana de Imprensa, realizada nos Estados Unidos, em 1966. Na ocasião, ele disse: “A investigação não é uma especialidade do ofício, pelo fato de que todo jornalismo deve ser investigativo, por sua definição” (SEQUEIRA, 2005, p. 15, tradução nossa).
[3] Trecho da reportagem “Repórter do ‘vale’ é agredido em S. José”.
[4] Depoimentos retirados da reportagem já mencionada.
[5] O “caso Tim Lopes”, como ficou conhecido, está devidamente documentado na obra de Percival de Souza, “Narcoditadura: o caso Tim Lopes”, publicada pela Editora Labortexto, em 2002.