Jornalismo cultural no Vale do Paraíba: longe de ser regional
Francisco de Assis*
Uma pesquisa realizada na Universidade Metodista de São Paulo**, em junho deste ano, revelou que apenas um terço do conteúdo noticioso sobre cultura divulgado pelo jornal Valeparaibano pode ser considerado como regional. O restante divide-se em conteúdos “importados”, ou seja, divulgação de espetáculos estrelados por ícones midiáticos que se apresentam no Vale do Paraíba, e em conteúdos “globais”, aqueles que podem muito bem ser publicados em mídias de alcance nacional, pois em nada refletem a identidade da região.
Tal resultado, apesar de levar a uma reflexão sobre a uma suposta falta de atenção à cultura valeparaibana, reforça as dificuldades de se praticar um jornalismo essencialmente regional, tendo em vista fatores mercadológicos e o próprio interesse do público ao qual o veículo se reporta.
Por jornalismo regional, entende-se, nesta discussão, a comunicação massiva periodística produzida num determinado espaço geográfico e que reflete as características e nuances da localidade. Trata-se, em outras palavras, de um fazer jornalístico enraizado no perfil sócio-econômico-cultural de um território específico, cujo conteúdo gerado espelha tal conjunta.
Nesse sentido, o jornalismo cultural adequado a um jornal regional – como é o caso do Valeparaibano – deveria se ocupar essencialmente de atrações artísticas, folclóricas, musicais, entre outras, singulares ao cenário em que se insere. Seria uma espécie de trabalho “bairrista”, numa tradução acerca da defesa aos valores locais.
Todavia, quando se pensa em produções destinadas ao mercado da informação, não se deve prender-se a utopias; ao contrário, a configuração dos meios de comunicação deve ser compreendida também pelo viés comercial. Por conta disso, a equipe responsável pela produção da editoria de cultura do Valeparaibano foi abordada durante a pesquisa citada nestas linhas. Pelo que se observou, na ocasião, os profissionais comungam da idéia de que, embora o Valeviver*** se identifique como reginal, os assuntos de maior repercussão nacional ou internacional têm maior apelo; além disso, enquanto produto à venda, o jornal espera atender a todas as expectativas de seu público-leitor, sem que este tenha que buscar informações em outros veículos.
E é por essas razões que o Valeviver está longe de ser um caderno de cultura exclusivamente regional. Ainda que dê um significativo destaque aos conteúdos dessa natureza – com matérias que ocupam toda a mancha gráfica da capa do caderno e com práticas similares –, a valorização de uma cultura “importada” e de outros assuntos que não condizem com o território do Vale do Paraíba demonstra que sua vocação não se resume à prática do jornalismo regional.
Diante disso, não seria arriscado afirmar que a melhor qualificação para o jornalismo cultural praticado pelo Valeparaibano é a de “regionalizado”, por ser construído com base em modelos totalizadores do mercado midiático.
* Pós-graduando em Jornalismo Cultural pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, pela Universidade de Taubaté (UNITAU) e pesquisador do Núcleo de Pesquisa e Estudos em Comunicação (NUPEC), da mesma instituição. Editor da Revista Acervo On-line de Mídia Regional. E-mail: francisco-nupec@uol.com.br
** O trabalho “Jornalismo cultural em contextos regionais: entre o mito e a realidade”, de autoria de Francisco de Assis, foi apresentado como cumprimento às atividades propostas no módulo Produção Jornalística na Área Cultural, ministrado pela profa. Dra. Mônica de Fátima Rodrigues Nunes, no curso de pós-graduação lato sensu em Jornalismo Cultural da UMESP.
*** Valeviver é o nome do caderno de cultura do jornal Valeparaibano.
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