Qual a principal função de um jornal? Informar? Correto. Promover a reflexão e a discussão de temas relevantes à população de maneira ampla e consciente? Correto. Porem, quem decide a relevância das pautas? Muitos podem achar que o editor e/ou os repórteres sejam responsáveis por esta decisão. Mais isso é universal? Errado.
Ao lemos determinados jornais, principalmente os pequenos, de circulação municipal, encontramos uma enxurrada de “releases”, que são comunicações institucionais enviadas a empresa de algum fato que estas instituições pretendem ver publicado. Normalmente são preparados por assessorias de imprensa dos mais diversos segmentos do primeiro, segundo e terceiro setor. Na maioria das vezes, são escritos de forma tendenciosa e sempre buscam promover a própria instituição.
Restringindo nossa análise ao Litoral Norte e Vale do Paraíba, vale citar alguns exemplos de como os releases tomam conta do espaço. Os jornais Expressão Caiçara e Noroeste News, da cidade litorânea de Caraguatatuba, são, num termo mais pejorativo, os releases “cuspidos e escarrados” tanto na Prefeitura quanto na Câmara Municipal. E perceptível a tendência para a politicagem. Os quesito da “imparcialidade” e da “ busca de informação pelos dois lados” desaparecem completamente, dando lugar a promoção “mais que escancarada”dos políticos.
“Aurimar traz de volta a Comissão de Saúde”, esse é somente o título da matéria publicada na última edição do Noroeste News, fruto da falta de competência do veículo em apurar tal informação enviada pela assessoria do vereador. O homem deve ser mesmo um herói, não? Trazer comissão de saúde sozinho? Ninguém mais lutava por isso?
Esse “tendencialismo” que notamos só faz aumentar a alienação da sociedade pouco informada, mas também desperta a descrença nas pessoas mais críticas em relação ao papel de responsabilidade social do jornalismo.
Já no caso do Vale do Paraíba, a história continua a mesma, tanto o Jornal da Cidade, de Pindamonhangaba, como o Diário de Taubaté – e tantos outros – apresentam o mesmo conteúdo apresentado pelas assessorias. Têm-se exemplos aos montes, sejam ainda no texto de divulgação dos vereadores, das Prefeituras, das faculdades, das associações e até de órgãos de saúde.
Pergunta-se, então, qual a validade dessas notícias baseadas em versões unilaterais que seguem ao pe da letra a teoria organizacional – fundada na hierarquização dos interesses – e tornam-se algo semelhante à publicidade gratuita?
A falta de pessoal qualificado? A falta de tempo nas redações? Também.Mas é claro que muitas vezes essa gratuidade é aparente, visto que não são essas mesmas organizações que preenchem grande parte do espaço publicitário destes informativos.E a típica frase popular do “uma mão leva a outra”.
Aí vem a pergunta: onde foram parar as teorias aprendidas na Universidade? Em que o jornalista filtrava as informações, ou mesmo as mais antigas, como quando se dizia que a matéria era reflexo da verdade?
O que se vê agora são espaços cedidos a propaganda descarada, que transforma o jornalista em digitador ou instrumento de “copia e cola”, e o jornal em utensílio da falta de compromisso com a população, atendendo aos interesses econômicos e políticos de uma minoria.