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Por uma televisão de qualidadeProf. Dr. Cidoval Morais de SousaQuando se decide o que se vai ver ou fazer na televisão, ao se eleger as experiências que vão merecer atenção e esforço de interpretação, ao se discutir, apoiar ou rejeitar determinadas políticas de comunicação, tem-se, em verdade, uma contribuição expressiva para a construção de um conceito e uma prática. O que esse meio é ou deixa de ser, com bem frisa o sociólogo Arlindo Machado, não é uma questão indiferente às atitudes dos grupos e atores envolvidos com ele. É o caso do conceito de qualidade, por exemplo. A idéia de televisão de qualidade (quality television) aparece, primeiro, no contexto britânico, na década de 1980. Os defensores, de acordo com Machado, são “menos arrogantes e mais expertos”. É um conceito polêmico. Em primeiro lugar, porque não pode ser compreendido por apenas um aspecto dominante, uma vez que há muitos outros em jogo; em segundo, porque a totalidade desses aspectos não foi ainda percebida em sua complexidade, nem pela academia, nem pelo mercado, nem pelos profissionais do meio, nem pela audiência. Assim, falar de qualidade em televisão é correr riscos. As listas disponíveis (sobre qualidade em TV) falham ao compartimentar o meio e ao valorizarem, apenas, os produtos acabados. Mas, ao nosso ver, a chave da qualidade está na investigação, experimentação e compreensão dos processo de produção; é neste lugar – os bastidores – que as diferentes concepções se confrontam, se negam, interagem, complementam-se, acomodam-se, constroem-se e descontroem-se permanentemente, ganham corpo, tempo e espaço. Pode-se, por exemplo, compreender a qualidade como um conceito puramente técnico (capacidade de usar bem os recursos expressivos do meio: boa imagem, bom roteiro, boa interpretação), ou como a capacidade de detectar as demandas da audiência (análise de recepção) ou as demandas da sociedade (análise de conjuntura) e transformá-las em produtos. Pode-se, também, compreendê-la por uma abordagem puramente estética, ou seja, a competência para explorar os recursos de linguagem numa direção inovadora. Uma outra possibilidade é a chamada abordagem ecológica, que privilegia aspectos pedagógicos, valores morais, modelos edificantes e construtivos de conduta que a televisão, teoricamente, estaria potencialmente apta a promover. Por outro lado, pode-se ainda compreender qualidade como poder de mobilização, participação, comoção nacional em torno de grandes temas de interesse coletivo, ou como diversidade, ou seja, a melhor televisão é aquela que abre oportunidades para o mais amplo leque de experiências. Mesmo reconhecendo que a qualidade pode estar, ainda, em programas de fluxos televisuais que valorizem as diferenças, as individualidades, as minorias, os excluídos, em vez de questões como a integração nacional e o estímulo ao consumo, nos limites deste artigo, ela é percebida como diversidade, abertura para a crítica e desconstrução de modelos, experimentação e diálogo de saberes. Uma compreensão que se constrói, não a partir não do que se vê na tela, mas dos processos sociais que envolve toda produção de significado nos bastidores da televisão, nas suas ambigüidades e virtudes. Como frisa Machado, talvez se deva buscar, em televisão, um conceito de qualidade flexível e ao mesmo tempo complexo, que permita valorizar trabalhos nos quais os constrangimentos industriais (velocidade, padronização da produção) não sejam tão conflitantes com a inovação e a criação de alternativas diferenciadas; nos quais a liberdade de expressão dos criadores não seja totalmente avessa às demandas da audiência e as necessidades de diversificação e segmentação não sejam refratárias às grandes questões nacionais e universais. |