Opinião, informação e ideologia nos editoriais da ‘Tribuna do Norte’

Francisco de Assis

Pós-graduando em Jornalismo Cultural pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, pela Universidade de Taubaté (UNITAU) e pesquisador do Núcleo de Pesquisa e Estudos em Comunicação (NUPEC), da mesma instituição. Editor da Revista Acervo On-line de Mídia Regional. E-mail: francisco-nupec@uol.com.br

Resumo

Este estudo analisa seis editoriais publicados no segundo jornal mais antigo do Estado, “Tribuna do Norte”, entre os meses de setembro e outubro de 2005. O objetivo é discutir o enfoque dado pelo veículo aos assuntos de maior repercussão, sobre os quais a empresa jornalística considera importante imprimir sua opinião oficial. Além disso, a pesquisa procura ampliar o debate acerca da utilização de um gênero jornalístico de caráter opinativo – o editorial – como serviço informativo e difusor de ideologias. Os recursos metodológicos utilizados neste trabalho são a pesquisa bibliográfica e as análises quantitativa e qualitativa.

Palavras-chave

Jornalismo opinativo; ideologia; mídia local; Tribuna do Norte.

           

Abstract

This article analyses six reports in the second oldest newspaper of the State of São Paulo called “Tribuna do Norte”, published between September and October 2005. The purpose is discuss the focus given by this vehicle to the most reverberated subjects which the journalistic and the editorial company considerates important to show its official opinion. Besides, this research tries to amplify the discussion about the utilization of a journalism opinative gender – like these editorials – as an informative service and ideologic diffusion. The methodological resources utilzed in this job is the bibliographic research and the quantitative and qualitative analysis.

Key-words
Journalism opinative gender; ideology; local media; Tribuna do Norte.

Para abrir o diálogo
O segundo jornal mais antigo do Estado de São Paulo, “Tribuna do Norte”, tem conseguido se manter em constante atividade há mais de cem anos. Criado no final do século 19, seu objetivo inicial era difundir idéias abolicionistas entre os poderosos da cidade de Pindamonhangaba (SP) e tal êxito foi comprovado com a antecipação da Lei Áurea naquela cidade valeparaibana.
Nos últimos trinta anos, a “Tribuna do Norte” tem se mantido graças aos recursos financeiros da prefeitura local, que tem posse do veículo, o que impossibilita, na maioria das vezes, a prática do chamado jornalismo imparcial – desprovido de liberdade para denunciar e levantar questões que coloquem em xeque o governo vigente. Isso tudo, embora a direção do jornal garanta que não há intervenção do prefeito ou de seus assessores no conteúdo veiculado semanalmente.
Este estudo analisa seis editoriais publicados no referido jornal entre os meses de setembro e outubro de 2005. O objetivo é discutir o enfoque dado pelo veículo aos assuntos de maior repercussão no período citado e sobre os quais a empresa jornalística considera pertinente emitir opiniões oficiais. Além disso, procura-se ampliar o debate acerca de um aspecto interessante: a utilização de um gênero jornalístico de caráter opinativo como serviço informativo e difusor de ideologias.
A metodologia utilizada se apóia na pesquisa bibliográfica, somada a análises quantitativas e qualitativas. Além disso, procurou-se levar em conta as declarações fornecidas pelo jornalista responsável pela “Tribuna do Norte”, Irani Gomes de Lima, a fim de ilustrar o processo de produção dos editoriais em um veículo de âmbito local.
            Essas observações possibilitam identificar conteúdos que exploram ações dos poder público vigente e que transformam os textos opinativos em verdadeiros espaços enaltecedores da atuação do prefeito e dos demais expoentes políticos, destacando uma ideologia bairrista, que se alicerça sobre a própria cidade de Pindamonhangaba.
            Vale citar também que este artigo reúne observações preliminares e que uma investigação mais aprofundada está em fase de elaboração dentro do quadro de atividades da linha “Mídia Regional”, do Núcleo de Pesquisa e Estudos em Comunicação (NUPEC), vinculado à Universidade de Taubaté.

A “Tribuna do Norte”
Uma das cidades mais antigas do Brasil, a tricentenária Pindamonhangaba foi a sétima cidade do Estado de São Paulo a fundar um jornal: o “Progresso”, no ano de 1863. A partir dessa data, vários outros veículos de comunicação impressos foram criados no município, caracterizados por vários perfis, como republicanos, liberais, conservadores, humorísticos, literários e abolicionistas.
Em 1882, o advogado João Marcondes de Moura Romeiro, nascido em Pindamonhangaba, fundou a “Tribuna do Norte”, com o objetivo de difundir idéias abolicionistas entre aqueles que mantinham pessoas negras em regime escravocrata. O efeito foi comprovado quando a cidade se antecipou à Lei Áurea e decretou a liberdade dos escravos no dia 25 de fevereiro de 1888.
A primeira edição do veículo circulou no dia 11 de julho de 1882, acompanhada do slogan “Folha Liberal – Publica-se aos Domingos”. Um fato curioso é que, além de ter sido fundador e primeiro proprietário, João Romeiro dirigiu o jornal no mais completo anonimato por 33 anos, até 1915, quando veio a falecer. Naquele ano, a direção foi assumida por seu primo, João Fernando de Moura Rangel.
De família tradicional e rica, João Romeiro montou uma tipografia em oficina própria, situada na Rua Independência, nº 2 e importou da França a impressora “Alauzet”, que até 1971 imprimiu o jornal. A tipografia também realizava trabalhos para terceiros, como cartões de visitas, cartões para enterros, programas e rótulos (SANTOS, 1999, p.86).
            Os estudos de Santos (1999) ainda registram que a primeira edição da “Tribuna do Norte” foi impressa em papel jornal, em quatro páginas, com cinco colunas cada, no formato 34x48,5cm, montado à mão e “impresso à tração humana” (p.87). Em sua sétima edição, o veículo passou a publicar folhetins, que estavam em moda naquele final do século 19.
            A abolição da escravatura em Pindamonhangaba foi noticiada com destaque 78 dias antes da assinatura da Lei Área. O jornal havia se tornado uma verdadeira tribuna para os que lutavam por esse ideal e, em 1889, também comemorou junto com o Partido Republicano, a Proclamação da República no Brasil, uma vez que ele próprio serviu como núcleo difusor daquelas idéias no Vale do Paraíba.
            Logo após a morte de Romeiro, a “Tribuna do Norte” entrou em nova fase. Daí em diante, passou pelas mãos de diversos proprietários – alguns também ligados a segmentos políticos – e teve quase 40 diretores. O nome foi mantido, mas a linha editorial e a identidade visual foram alteradas várias vezes, chegando a ser rodado até em papel rosa, na década de 1960.
A “Tribuna do Norte” também passou por vários momentos de crise financeira, mas mesmo assim conseguiu se manter em constante funcionamento por mais de um século, constituindo-se o segundo jornal mais antigo do Estado – ficando abaixo apenas d’“O Estado de S. Paulo” –, o quinto do país e o sexto da América Latina.
A partir do momento em que se torna a “Imprensa Oficial” do município e, posteriormente, quando se transforma em Fundação Municipal, essa característica de jornal profundamente preocupado com fatos locais e voltado para as causas municipais, acentua-se de forma incontestável (BONTORIN; CAMARGO, 2002, p. 44).
       Por quase cem anos, a “Tribuna do Norte” foi confeccionada artesanalmente e esse método só foi modificado quando a impressora “Aluzet” foi substituída por uma linotipo. O impresso experimentou uma fase como diário, de abril de 1986 até dezembro de 1988, quando voltou a ser bissemanário.
O jornal rompeu o ano 2000 em constante atividade e, atualmente, é montado com recursos da informática e também é disponibilizado em versão on-line. A tiragem é de 1.500 exemplares, tamanho standard, saindo semanalmente, às sextas-feiras. É comum encontrar os releases enviados pela assessoria de imprensa da Prefeitura de Pindamonhangaba estampados nas páginas do veículo; as demais matérias, escritas por jornalistas e estagiários que atuam na empresa jornalística, procuram sempre reforçar aspectos positivos da cidade, disseminando uma cultura bairrista entre o público-alvo .

Jornalismo opinativo nos editoriais
Os gêneros opinativos encontrados no jornalismo podem ser considerados como um artifício da profissão, que o jornalista utiliza para se colocar entre o dever de informar e o poder de opinar. Portanto, jornalismo opinativo é a reação diante dos fatos noticiados, difundido pelas empresas jornalísticas, com a intenção de promover um espírito crítico e reflexivo em seu público-alvo.
Grandes, médios e até mesmo pequenos jornais devem ter a veracidade dos fatos como norte de sua atuação profissional. Antes de imprimir qualquer postura frente a um acontecimento, faz-se necessário confirmar se as informações levantadas são confiáveis.
Com relação à enumeração dos gêneros que compõem a opinião, cada autor propõe uma determinada ordem, de acordo com o contexto em que se insere seu objeto de estudo. Assim, a imprensa de cada região, país ou continente põe em prática determinados gêneros de acordo com a realidade que a circunda.
No Brasil, José Marques de Melo apontou oito apontou oito gêneros que podem ser classificados como opinativos: editorial, comentário, artigo, resenha, coluna, crônica, caricatura e carta.
É por meio do editorial que as empresas jornalísticas expressam seu juízo sobre os acontecimentos que se desdobram em determinado momento. Nesse sentido, o editor acaba direcionando a “postura oficial” do veículo de acordo com interesses editoriais e até mesmo mercadológicos.
Beltrão (1980) observa que a opinião destacada pelo editorial deve orientar o pensamento do público para o bem comum. Diferentemente da notícia, que expõe os acontecimentos de maneira objetiva e sucinta, esse gênero opinativo abarca outra dimensão, além do tempo e do espaço que contemplam a informação, e manifesta-se na profundidade dos dados.

O editorial é a voz do jornal, sua tribuna. Um jornal sem voz nem voto é como um homem sem juízo. Jornalismo que não se sente capaz ou não pode dar orientação nem formular critérios é um jornalismo sem uso da razão [...] O editorial faz transcender de sua peremptória urgência a notícia. A realidade humana – única que interessa no jornalismo – fala por meio do acontecimento, e o editorial tem de traduzir essa linguagem dos fatos, ininteligíveis ao não especializado, em termos de geral compreensibilidade. Ao traduzir o idioma da realidade, o editorial nos dá o significado do que acaba de acontecer. (p. 52)

Vale ressaltar que embora o editorial seja classificado como um gênero opinativo dentro do jornalismo, os conteúdos divulgados em suas linhas podem ser denominados de diferentes formas: “informativo (esclarecedor), normativo (exortador) e ilustrativo (educador)” (MARQUES DE MELO, 2003, p. 111).
As diferentes maneiras com que o editorial se apresenta têm a ver diretamente com a situação em que ocorrem os fatos que requerem opiniões. Essa diversidade também se dá em decorrência da própria linha editorial do jornal, que muitas vezes não tem espaço para desdobrar alguns assuntos e aproveita o lugar do editorial para destacar fatos de interesse coletivo.

Os editoriais da “Tribuna do Norte”
            A maior obrigação da imprensa local é difundir informações próximas ao cotidiano da população local, cujo conteúdo interfira direta ou indiretamente na vida das pessoas de determinada cidade ou região. Partindo desse princípio, é necessário que mesmo os assuntos de destaque nacional ou internacional sejam orientados para o consumo do público local, a fim de que esses receptores entendam por que aquelas informações são condizentes à sua realidade.
            No conteúdo opinativo publicado em veículos regionais, essa característica não é dessemelhante. Os textos que emitem a postura oficial do veículo, ou de articulistas de diferentes procedências, devem oferecer subsídios para o público-alvo formar sua própria opinião sobre os assuntos próximos do seu dia-a-dia.
            Os estudos de Marques de Melo (2003) destacam que a opinião oficial dos veículos, exposta nos editoriais, é reflexo de uma série de interesses, que influenciam na linguagem, no estilo e, até mesmo, no espaço dispensado aos assuntos. No caso da “Tribuna do Norte”, que é declaradamente um jornal vinculado à Prefeitura de Pindamonhangaba, os temas abordados, na maioria das vezes, são voltados para ações do governo vigente.
            Independentemente de estar atrelado a algum órgão público e/ou ter veiculação restrita, todo jornal deve cumprir com algumas obrigações, tendo sempre em vista sua fidelidade com o público-alvo. Kovach e Rosenstiel (2004) alertam para nove tópicos que devem nortear o trabalho jornalístico, pontos que também precisam ser levados em consideração no que diz respeito aos editoriais:

  1. A primeira obrigação do jornalismo é com a verdade.
  2. Sua primeira lealdade é com os cidadãos.
  3. Sua essência é a disciplina da verificação.
  4. Seus praticantes devem manter independência daqueles a quem cobrem.
  5. O jornalismo deve ser um monitor independente do poder.
  6. O jornalismo deve abrir espaço para a crítica e o compromisso público.
  7. O jornalismo deve empenhar-se para apresentar o que é significativo de forma interessante e relevante.
  8. O jornalismo deve apresentar as notícias de forma compreensível e proporcional.
  9. Os jornalistas devem ser livres para trabalhar de acordo com sua consciência. (p. 22-23)

 

Na prática, é fato que os profissionais encontram diversos obstáculos para cumprir todas as metas apresentadas. Mesmo assim, é dever das empresas jornalísticas se aproximarem ao máximo dessas metas. A direção da “Tribuna do Norte”, em especial, afirma ter autonomia na atuação jornalística e não sofrer qualquer tipo de pressão. Em entrevista, o jornalista responsável pelo veículo, Irani Gomes de Lima, explica que apesar ser considerado a imprensa oficial do município, o jornal não se sente inibido ao abordar alguns assuntos, em certos momentos:

A  abordagem é feita de forma normal, sem paixões. Temos que nos manter eqüidistantes tanto dos assuntos relacionados à Prefeitura como dos demais. Até o momento, agindo de  acordo com essa linha, não tivemos nenhuma inibição nem fomos repreendidos pelo que publicamos ou deixamos de publicar. Agora, é bom dizer também que em nenhum momento o atual prefeito, João Ribeiro, ou seus assessores exigiram que publicássemos esta ou aquela matéria. No máximo, são sugeridas pautas, o que deve ser encarado como absolutamente normal, pois a assessoria de imprensa da Prefeitura produz releases com informações para a imprensa e a “Tribuna” não é diferente.

Lima ainda esclarece que não há um critério básico na seleção de fatos. Tudo depende do momento. O importante, segundo ele, é acompanhar o cotidiano da cidade e representar a opinião do jornal no editorial, que, na prática, acaba por se constituir no reflexo de sua opinião própria, pois não há como dissociar uma da outra.

Procuramos retratar a realidade de Pinda. Claro que num jornal mantido com verbas públicas, o cuidado deve ser maior na elaboração do editorial. Temos que levar em conta o fator histórico da Tribuna (são 123 anos), respeitar os seus leitores (grande parte formada por professores e pessoas tradicionais na cidade), os quais representam uma massa crítica importante, e não nos deixarmos levar pela emoção, embora, algumas vezes, a emoção queira falar mais alto. É preciso ter equilíbrio e fundamentar bem sua opinião.

Outro ponto que o jornalista faz questão de ressaltar é que nem sempre o que está no editorial é matéria no restante do jornal. Porém, como editorialista, ele sente-se no dever de acompanhar os fatos para ter consciência da mensagem que deseja passar aos leitores.

 

Análises preliminares
Em termos quantitativos , o espaço destinado ao editorial na “Tribuna do Norte” é sempre de uma “coluna falsa” (270,75 cm²), posicionada no canto superior esquerdo da página 2, sendo publicado apenas um texto do gênero em cada edição, o que leva a crer que há interesse do veículo em dar destaque ao conteúdo. Contudo, esse limite corresponde a menos de um sexto de página, ou seja, um espaço pequeno dentro da mancha gráfica. Vale ressaltar que o local onde ele se insere é comum aos jornais impressos, que expressam sua opinião logo na página subseqüente à capa e antecedente às demais, nas quais são publicados outros conteúdos informativos, interpretativos e opinativos devidamente assinados.
O editorial de 23 de setembro de 2005, intitulado “Paixão e compaixão”, aborda um problema enfrentado pela população de Pindamonhangaba: a presença de cães sem donos nas ruas da cidade. Muito embora o veículo não emita uma postura oficial sobre o fato, percebe-se que o texto contém características que estimulam a opinião do próprio leitor, uma vez que as palavras ali contidas refletem poucas idéias e enfatizam afirmações e dados estatísticos sobre o número de pessoas vítimas dos animais. Além disso, o editorial defende os interesses do governo vigente, ao explicar a postura assumida pela Prefeitura e sugere que tal atitude é benéfica à população do município.
            Na edição subseqüente, de 30 de setembro de 2005, o editorial “Fala sério!” retoma o assunto pautado no número anterior. Desta vez, o texto é imbuído de um desconforto com relação à repercussão da medida tomada pela Prefeitura de Pindamonhangaba, no caso dos cães de rua. Diferentemente da publicação anterior, a Tribuna do Norte imprime sua postura sobre os acontecimentos, mas em defesa da administração pública em vigor. Outro ponto a ser ressaltado é que o veículo utiliza recursos que promovem diálogo com o leitor, como, por exemplo, quando questiona: “Quem, desses que se dizem defensores dos animais, está preocupado com a saúde pública?”. Tal interação é uma das características do gênero editorial.
            O primeiro editorial do mês de outubro de 2005, “Pinda na Itália”, publicado no dia 7, aborda a participação do prefeito de Pindamonhangaba, João Ribeiro, em uma feira de fabricantes de máquinas e equipamentos para produtos alimentícios, realizada na Europa. Novamente o jornal se isenta da emissão de qualquer opinião oficial sobre o fato e apenas discursa sobre um projeto a ser implantado na cidade, que gerará resultados satisfatórios para a população. Apesar de não ser opinativo, esse conteúdo não é incoerente ao gênero editorial, e é caracterizado como informativo – esclarecedor –, conforme classifica Marques de Melo (2003).
            Um dos filhos ilustres de Pindamonhangaba, o maestro João Gomes de Araújo, é tema do editorial homônimo do dia 14 de outubro de 2005. O texto aborda a execução da obra do maestro, por uma orquestra em São José dos Campos (SP) e explica por que tal personagem é importante no cenário artístico nacional. Nesse caso, o espaço dedicado à opinião da Tribuna do Norte diz respeito à preocupação com a preservação da obra de João Gomes de Araújo, com a afirmação: “Ninguém tem o direito de manter suas partituras esquecidas em alguma gaveta, trancadas a sete chaves, em prejuízo da cultura nacional”.
            O editorial de 21 de outubro de 2005, “Profissionalismo no esporte”, por sua vez, tem como pano de fundo o esporte amador. O discurso remete aos Jogos Abertos do Interior, realizados em Botucatu, nos quais, Pindamonhangaba foi representada por poucos atletas e conquistou apenas três medalhas. A opinião da Tribuna do Norte, nesse caso, gira em torno da preocupação em promover ações que incentivem o amadorismo – que deve obter recursos semelhantes ao esporte profissional, com a expectativa de não se extinguir. Fato a ser ressaltado é a recordação de gestões públicas da década de 1980, que dispensavam especial atenção para o esporte amador.
            Por fim, o editorial de 28 de outubro de 2005, que tem como título “Tempo de Esperança”, faz uma simbiose entre o final do ano em curso e a possibilidade de novos empregos a serem gerados em Pindamonhangaba, graças à implantação de um condomínio industrial na cidade, que foi sugerido pelo prefeito João Ribeiro, durante sua participação na feira realizada na Itália. O texto não apresenta características exclusivamente opinativas, apesar de tecer elogios à atuação da atual prefeitura do município.
Com base no material observado é possível afirmar que os editoriais do jornal “Tribuna do Norte” condizem com seu papel de refletores de parte da realidade do local em que está inserido – a cidade de Pindamonhangaba. Todavia, não se prendem à reflexão sobre os assuntos que interfiram diretamente no cotidiano de um grande grupo de pessoas. Ao contrário, o conteúdo textual, em sua grande maioria, se volta muito mais aos interesses da prefeitura e de pessoas tradicionais do município, postura característica de um discurso que reforça o espírito bairrista, ainda presente entre os habitantes da cidade .
Os textos analisados ainda comprovam os apontamentos de Marques de Melo (2003), cujas definições remetem ao conteúdo dos editoriais como algo que, em alguns momentos, também pode apresentar apenas informações, a fim de esclarecer o público-leitor.

Ideologia

            Além de informar a seu público as últimas notícias da cidade e opinar sobre aquelas que se destacam, a “Tribuna do Norte” ainda vai além, em seu conteúdo jornalístico, ao disseminar uma postura ideológica que ultrapassa a superficialidade das linhas impressas no semanário.
            Para aprofundar este estudo pelo viés da ideologia, se faz necessário categorizá-la com uma das explicações dadas por Chaui (1988), baseadas em afirmações de Karl Marx e Friedrich Engels e que condizem com o processo de produção e recepção de conteúdos jornalísticos opinativos:

A ideologia fabrica uma história imaginária (aquela que reduz o passado e o futuro às coordenadas do presente), na medida em que atribui o movimento da história a agentes ou sujeitos que não podem realizá-lo. Assim, por exemplo, a ideologia nacionalista faz da Nação o sujeito da história, ocultando que a Nação é uma unidade imaginária, pois é constituída efetivamente por classes sociais em lutas. A ideologia estatista faz do Estado ou da ação dos governantes ou das mudanças dos regimes políticos o sujeito da história, ocultando que o Estado não é um sujeito autônomo, mas instrumento de dominação de uma classe social e que, portanto, o sujeito dessa história estatista imaginária é, afinal, apenas a classe dominante. (p.120)

Os editoriais, escritos com linguagem simples e de fácil assimilação, promovem a construção de uma ideologia bairrista , calcada no reconhecimento dos atos do governo vigente como sendo de grande valia para Pindamonhangaba e, também, na supervalorização da atuação de personagens que ajudaram e ainda ajudam a construir a história da cidade.
Apesar de o editorialista pautar diferentes assuntos no espaço a ele confiado, pode-se notar que a maior parte dos temas abordados diz respeito ao atual prefeito do município. Nesse contexto, reforça a idéia de que o governante trabalha para o bem estar coletivo, ao defender os interesses da prefeitura e criticar a postura da mídia concorrente, quando essa tece críticas ao governo, como no editorial de 23 de setembro e no dia 30 do mês citado de 2005, quando o jornal publica:

Temos observado a nossa imprensa, infelizmente, confundir alhos com bugalhos, num processo de mistificação que só confunde o cidadão, vítima indefesa de uma voracidade crítica sem paralelo. Quem está do lado de lá já esteve do lado de cá. E desanca a administração municipal como se desconhecesse que aquilo que está sendo feito agora (apreensão de animais de rua) foi comodamente “esquecido” pelo seu antigo chefe .

Ao tratar de outros assuntos – além do governo – o jornalista responsável pelo editorial deixa sempre transparecer a importância de Pindamonhangaba em esferas que vão muito além de seus próprios limites, o que torna a cidade o centro das atenções e caracterizada como “sujeito da história”, como acontece nos editoriais de 7 e 14 de outubro de 2005.  O texto de 7 de outubro afirma:

Em julho, durante as comemorações dos 300 anos de emancipação política do município, representantes dos empresários italianos estiveram em Pindamonhangaba. Foram recebidos pelo prefeito João Ribeiro e voltaram encantados com sua localização. Agora, ao visitar Parma para participar da feira de negócios de fabricantes de equipamentos para a indústria alimentícia, a delegação de Pindamonhangaba vai poder mostrar o que a cidade oferece e falar de sua localização privilegiada .
           
Outro ponto a ser ressaltado é que o recorte dado a fatos passados induz ao pensamento de que aquilo que ainda está por vir deveria seguir os mesmos caminhos de outrora, para que seu êxito seja garantido. Afinal,

a ideologia explica o presente como efeito do passado, o passado pelo presente e o futuro pelo já existente, fazendo com que este último deixe de ser o possível (aquilo que os homens poderão realizar) para se tornar o previsível (aquilo que os homens deverão realizar)... (CHAUI, 1988, p. 120)

Cabe também reforçar que os textos opinativos que, em algumas vezes, são constituídos também como informativos, por serem os únicos elementos na edição a abordarem o assunto, aproveitam o espaço para esclarecer o leitor sobre alguma situação, também imprimem uma visão de otimismo para o futuro, deixando a entender que o sucesso da cidade nos próximos anos depende da semente plantada nos dias de hoje, à luz de experiências do passado, conforme observado nas edições de 21 e 28 de outubro de 2005.
Assim, os tópicos estudados nesta pesquisa podem ser divididos em três categorias: defesa do governo vigente, valorização da cidade e otimismo para o futuro. Em todos os tópicos, fica clara a intenção de enaltecer a atuação de ícones da cidade, como forma de gerar empatia no público e elogiar os aspectos positivos do município.

Considerações finais
            Não é apenas por se constituir no segundo jornal impresso mais antigo do Estado de São Paulo, que a “Tribuna do Norte”, diferentemente da maioria dos jornais de interior, se tornou um veículo expressivo no Vale do Paraíba, principalmente na cidade de Pindamonhangaba. Sua trajetória centenária, a qual foi traçada em diferentes situações, demonstra, com autonomia, a representatividade do trabalho jornalístico e reforça seu caráter de porta-voz da sociedade.
            Voltando-se para esse contexto, é possível entender a importância dada aos conteúdos que levam o público-alvo do jornal a refletir e absorver situações que, de alguma forma, interferem em sua vida ou desperta o interesse coletivo. Essas são características encontradas nas páginas da “Tribuna do Norte”, que condizem com as determinações de Kovach e Rosenstiel (2004), acerca da atividade jornalística.
Ao incluir nos editoriais conteúdos informativos e opinativos, o jornalista responsável pelo jornal presta um serviço aos leitores, que encontram nesses textos os subsídios necessários para a compreensão de assuntos pertinentes e que estão em voga. E apesar de enaltecer os atos do governo vigente de Pindamonhangaba e supervalorizar a atuação de outros personagens que ajudaram ou ajudam a construir a história da cidade, o veículo cumpre seu papel de emissor de fatos noticiosos e também de fonte de registro da história do município paulista.
Quanto ao caráter ideológico, o que se pode dizer é que a clara postura de defensor dos interesses da cidade, refletida nos editoriais, avigora um espírito crítico no público-alvo, com base numa cultura bairrista. Dos leitores, certamente, a “Tribuna do Norte” espera que se tornem multiplicadores dessa ideologia.
Essas características são os principais fatores que definem uma mídia que não se envergonha de ser bairrista. Afinal, cabe aos veículos de grande porte e de vasta abrangência levantar assuntos considerados “globais”, que vão ao encontro do interesse do público massivo. Ao jornalismo local, por sua vez, resta a responsabilidade de olhar o que acontece nos núcleos que estão à sua volta, seja do bairro, do município ou da região, para que o cotidiano desses locais também se torne elemento da história.

 

Referências bibliográficas

ALMEIDA, G. T. Imprensa do interior: um estudo preliminar. São Paulo: IMESP/DAESP, 1983.

ÁVILA, C. S.; JESUS, E. G. S. Tribuna do Norte: um resgate da história do jornal mais antigo do interior do Estado. Projeto Experimental 64 f. (Graduação de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo) – Universidade de Taubaté, Taubaté, 1996.

BELTRÃO, L. Jornalismo opinativo. Porto Alegre: Sulina, 1980.

BONTORIN, A. C.; CAMARGO, K. Tribuna do Norte, Pindamonhangaba. In: QUEIROZ, A.; OLIVEIRA, D. Jornais centenários de São Paulo. Piracicaba, SP: Degaspari, 2002.

CHAUI, M. O que é ideologia. São Paulo: Brasiliense, 1988.

DINES, A. O papel do jornal: uma releitura. 6. ed. São Paulo: Summus, 1996.

HOUAISS, A.; VILLAR, M. S. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

KOVACH, B.; ROSENSTIEL, T. Os elementos do jornalismo: o que os jornalistas devem saber e o público exigir. 2. ed. São Paulo: Geração Editorial, 2004.

MARQUES DE MELO, J. Estudos de jornalismo comparado. São Paulo: Pioneira, 1972.

________. (Org.) Gêneros jornalísticos na Folha de S.Paulo. São Paulo: FTD, 1992.

________. Jornalismo opinativo: gêneros opinativos no jornalismo brasileiro. 3. ed. rev. e ampl. Campos do Jordão, SP: Mantiqueira, 2003.

SANTOS, T. E. S. Tribuna do Norte: a trajetória centenária do jornal mais antigo do interior do Estado de São Paulo. Acervo Mídia Regional: Revista do Núcleo de Pesquisa e Estudos em Comunicação da Universidade de Taubaté, Taubaté, ano 3, n. 4, p. 85-95, 2º sem. 1998.

De acordo com informações fornecidas pela diretoria da “Tribuna do Norte”, o público-alvo em potencial do jornal constitui-se de moradores da cidade de Pindamonhangaba e do distrito de Moreira César.

Depoimento concedido pelo jornalista Irani Gomes Lima, via e-mail, em 21/11/2005.

Idem, ibidem.

A análise quantitativa utilizada neste estudo valeu-se dos paradigmas teóricos de Jacques Kayser, reformulados e propostos por José Marques de Melo (1972). Para eles, essa metodologia, por decompor o espaço impresso do jornal, tendo em vista seus elementos gráficos, ajuda na elaboração de conclusões sob outro prisma, uma vez que permite a visualização de quanto espaço é destinado a determinado assunto.

A definição de bairrismo, bem como seu aspecto ideológico e sua interferência na produção midiática em Pindamonhangaba, serão abordados no próximo tópico.

O conceito de bairrista remete à defesa dos interesses de um bairro ou, no caso, de uma cidade, conforme explica o Dicionário Hoaiss da Língua Portuguesa.

Trecho retirado do editorial de 30/09/2005.

Trecho retirado do editorial de 07/10/2005.