A  Cobertura da Parada GLBT na Mídia Paulistana:
Um estudo sobre as fontes utilizadas pelos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo

André Luiz Leite das Dores
Pérsio da Cunha Rola

A 11ª edição da Parada GLBT de São Paulo reuniu cerca de 3,5 milhões de pessoas na Avenida Paulista, principal corredor da capital do Estado. Como se esperava, a mídia dedicou especial atenção ao evento considerado a maior manifestação política do gênero de todo o mundo, contabilizando números nunca, antes, registrados.
           
Este estudo observa como os dois principais jornais da metrópole – Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo – deram cobertura ao evento citado. Para tanto, utilizou-se como objeto de estudo as edições que circularam no dia posterior ao evento (11 de junho de 2007).  O objetivo é identificar as fontes que os jornalistas utilizaram para compor os textos jornalísticos e compará-las com as propostas editoriais dos veículos estudados.

                        Por tratar de um tema ainda pouco explorado por pesquisas do campo da Comunicação, a pesquisa ainda espera contribuir para que novos olhares se voltem para o trabalho desenvolvido pela imprensa brasileira com relação a assuntos polêmicos.      

Revisão de Literatura

Segundo o “mito da neutralidade”, o jornalista, “assim como qualquer outro tipo de profissional, não é neutro, apolítico, por mais que o queira ser. Sua experiência de vida, seu repertório, estará presente em todo o seu trabalho” (LIMA, 2004, p. 19).
E talvez seja essa a explicação para que as abordagens de temas polêmicos, como é a questão da homossexualidade, tenham um caráter tão superficial na mídia. “Em tese – salvo, é obvio, nos jornais de cunho ideológico ou partidário – a imprensa, de acordo com o mito da objetividade, deveria colocar-se numa posição neutra e publicar tudo o que ocorresse, deixando ao leitor a tarefa de tirar suas próprias conclusões” (ROSSI, 1988, p. 9).

Ao se disporem a tratar de questões polêmicas, como é o caso da homossexualidade, os veículos de comunicação levam em conta, além da linha editorial a qual estão submetidos, o impacto que tais discussões podem causar sobre a opinião pública e, principalmente, sobre a imagem da empresa jornalística. O que percebemos, por meio da bibliografia específica da

área e pela leitura diária de jornais, é que os jornalistas adotam uma postura quase sempre indiferente sobre sua responsabilidade de informar. “É mais fácil tratar o homoerotismo pelo viés da polêmica, da coisa proibida” (BARBOSA, 1998, p. 28) e de uma forma superficial, que correr o risco de ficar mira da opinião pública.

Em 1996, a Revista Imprensa abriu uma discussão sobre o tema “homossexualidade”. Na ocasião, o veículo criticou a falta de ética dos meios de comunicação ao abordar o caso polêmico de um oficial do Exército que foi flagrado por policiais no momento em que mantinha relações sexuais com outro homem, como se o caso fosse isolado ou não ocorresse também entre os heterossexuais. A repercussão do caso foi negativa, principalmente para o oficial, que teve sua moral destruída, conforme  consta da dissertação de mestrado “Gayleria, um estudo sobre o tratamento que a Folha de S. Paulo dispensa ao homoerotismo”, deJackson da Silva Barbosa (1998, p. 31):

 
Ao sensacionalizar o caso e tratá-lo como fato isolado, os jornais e os jornalistas deixaram de abordar o que realmente interessava – o homoerotismo no Exército e nas demais forças militares, que não o toleram enquanto expressão sexual.

Estudos mais recentes mostram que a realidade não é muito diferente daquela comprovada por pesquisas feitas há dez anos. Raquel Paiva mostra, em seu artigo “Cinco anos de pesquisa em Comunicação e Cultura de Minorias”, que a abordagem da mídia, especificamente sobre a Parada Gay de São Paulo, continua superficial:

 
Todos abordaram o lado festivo do evento, o número de participantes, as presenças conhecidas, os shows, mas afinal, nenhum sequer apontava as reivindicações ou questionava o caráter político do evento. E mesmo o jornal A Folha de São Paulo, reconhecidamente um dos jornais de maior postura crítica do país, se recusou a esta abordagem. Sob o questionamento do seu ombudsman, o editor revelou que efetivamente a editoria deu prioridade à cobertura factual do evento (PAIVA, 2006, p. 35).


 Metodologia

Esta investigação se apóia na pesquisa bibliográfica e aborda aspectos quantitativos e qualitativos, metodologia ideal para a análise de conteúdos publicados em jornais, conforme orienta José Marques de Melo (1972), na obra Estudos de Jornalismo Comparado.

Organizou-se, num primeiro momento, uma lista das pessoas que concederam entrevistas aos veículos analisados, com especial atenção à qualificação de cada uma delas (para verificar se as mesmas eram hábeis a se pronunciar sobre o assunto) e à declaração registradas pelos jornais. Com base nesses apontamentos, as declarações foram distribuídas em quatro categorias: 1) contrárias; 2) favoráveis; 3) mistas; 4) neutras.

Análise Comparativa
ESTADO DE SÃO PAULO


Título da matéria: Religião foi o mote central da Parada Gay

Fonte

Qualificação

Declaração

Impacto

Gelson Piber

Pastor

“Deus aceita a gente como a gente é”

Favorável

José Ribeiro Fernandes

Participante

“Eu sou o papa do amor. Não vou morrer por não poder usar preservativos. Usem camisinha, irmãos”

Neutra

Camille André

Transformista

“É difícil ficar bonita a festa inteira, amor”

Neutra

Um rapaz

 

“Vamos gastar essas camisinhas, vamos”

Contrária

Marcos Paulo da Silva

Participante

“Eu preferia quando a Parada Gay era mais política. Agora, fica essa molecada fazendo farra”

Contrária

Ricardo Moura Aguieiros

Escritor

“Idosos também são muito gostosos”. “Quem é idoso e gay sofre o dobro de preconceito. A gente vive nessa ditadura do bonito, do mais novo”.

Neutra

Dino Peres Martins

Auxiliar de enfermagem

“Sou a Penélope Charmosa dos gays. Sofri muito preconceito dos motoqueiros e agora sou assumidão.”

Neutra



Título da matéria: Protesto

Fonte

Qualificação

Declaração

Impacto

Cid Tavares

Idoso

“A gente adora. Pena que vamos embora antes do fim. Terceira idade tem de dormir cedo”

Favorável

Maria Teixeira da Silva

Professora

“Já estive em greve de professores, no impeachment do Collor, nas Diretas Já...”

Favorável

Luís Alexandre da Silva

Dublê

“Deus condena a prática homossexual”

Contrária

Nelson Matias Pereira

Presidente da Associação da Parada do Orgulho GLBT

“Essa é a Parada do amor”

Favorável



Título da matéria:

Fonte

Qualificação

Declaração

Impacto

Gilberto Kassab

Prefeito de São Paulo

"O Brasil está cada vez menos preconceituoso"

Favorável

Marta Suplicy

Ministra do Turismo

"Nossa cidade está mostrando cada vez mais que respeita as diferenças"

Favorável

Orlando Silva

Ministro

"Se o presidente Lula pudesse, ele estaria aqui conosco"

Favorável

Gilberto Kassab

Prefeito de São Paulo

"E a parada merece esse investimento"

Favorável

Gilberto Kassab

Prefeito de São Paulo

"A questão é de foro íntimo de cada um" "Não sou gay"

Neutra

 

Total de Fontes

16

 

 

Favoráveis

8

 

 

Contrárias

3

 

 

Mistas e Neutras

5

FOLHA DE SÃO PAULO

Título da matéria: Parada Gay cresce; diversão e problemas, também

Fonte

Qualificação

Declaração

Impacto

Leão Lobo

Apresentador

"Somos 4 milhões!"

Favorável

Luciana Soares

Mãe

"Ela tem dois meses. Não tenho medo, a parada é de paz"

Favorável

Amanda Salles

Participante

"Pela TV a festa parece ser bonita, mas ao vivo não dá para aproveitar."

Contrária

Amanda Cintra

Participante

"Já tem gente bêbada demais. Todo mundo passa a mão e agarra. Não curti nada."

Contrária

  

Título da matéria: "Nunca vi tanta gente feia", dizem habitués

Fonte

Qualificação

Declaração

Impacto

Victor Prado

Estudante

"Nunca vi tanta gente feia!"

Contrária

 

 

"hoje é freqüentada por pessoas que nem são gays".

Neutra

Ricardo Sá

Administrador

"Isso aqui está irreconhecível, olha só quanto mano"

Contrária

Emanuel Via.

Professor

"Acontece que isso aqui é um evento aberto, não precisa pagar nada. Então, não dá para controlar a freqüência"

Contrária

Mauro Scur

Fotógrafo

"Como vocês dizem aqui em SP, só tem periferia. Lá no Rio, a gente diria suburbano".

Contrária

Marcos Costa

Maquiador

"as "bonitas" são preconceituosas, não vêm mais. Então, a parada tomou outro rumo".

Contrária

Ronaldo Gomes

Stylist

"O problema é o baixo poder aquisitivo da maioria. Nem sempre aqui as pessoas são exatamente feias; às vezes são apenas mal tratadas. Presta atenção nos cabelos, nas peles..."

Contrária

Edson

Gerente comercial na área de moda

"o problema é que tem muita gente, e o número de feios é sempre maior. Aumenta na mesma proporção".

Contrária

Carlos

Namorado de Edson

"No máximo, 10% são bonitos".

Contrária

Roberto Oliveira

Bailarino

"Quem são eles para dizer alguma coisa?"

Contrária

 

Título da matéria: "Mais gay que eu"

Fonte

Qualificação

Declaração

Impacto

Tiago Lima

Estudante de Engenharia

"É um evento para todo mundo, véio. Tamos aí para ajudar os gays"

Mista*

Mateus Aguiar

Radiologista

""Isso aí" é mais gay que eu. É uma questão de tempo"

Neutra

Bruno

Pofessor de educação física

"A parada é pra todo mundo, gente feia, bonita..." "esquisita"

Mista*

  

Título da matéria: Organizadores do evento pedem apoio ao projeto que criminaliza a homofobia

Fonte

Qualificação

Declaração

Impacto

Nelson Matias Pereira

Presidente da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo

"Mais uma vez a gente vai fazer um grande evento. Infelizmente, a nossa visibilidade ainda não foi suficiente para reverberar em ações de políticas públicas. Ainda somos tratados como cidadãos de segunda";

Favorável

Nelson Matias Pereira

Presidente da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo

"Estamos aqui para pedir apoio à lei importante que criminaliza a questão da homofobia",

Favorável

Toni Reis

 

"Prefeito Kassab, nosso companheiro, queremos que o senhor peça aos senadores que votem favorável"

Favorável

Gilberto Kassab

Prefeito da Cidade

"A parada merece"

Favorável

Marta Suplicy

Ministra do Turismo

disse que falta "vontade política" dos parlamentares para aprovar leis que melhorem as condições dos gays.

Favorável

Vinicius de Carvalho

Chefe de gabinete da Secretaria Especial de Direitos Humanos

disse que a União planeja organizar uma conferência de políticas públicas para GLTB.

Favorável


Total de Fontes

23

Favoráveis

8

Contrárias

11

Mistas e Neutras

4



 

FOLHA DE SÃO PAULO

ESTADO DE SÃO PAULO

Total de Fontes

23

16

Favoráveis

8

8

Contrárias

11

3

Mistas e Neutras

4

5



Linhas editorias

Tanto a Folha quanto o Estado defendem, em seus manuais de redação, a imparcialidade, a objetividade, a pluralidade, bem como condenam a discriminação das minorias étnicas, religiosas, sexuais, políticas ou de qualquer outro tipo.
O Manual de Redação do Estado (1997) sugere: “Faça textos imparciais e objetivos. Não exponha opiniões, mas fatos, para que o leitor tire deles as próprias conclusões. [...] Lembre-se de que o jornal expõe suas opiniões nos editorias, dispensando comentários no material noticioso”.

Do ponto de vista da formação da opinião pública, o Manual de Redação da Folha (1987) ressalta: “Apoiado em fatos e dados exatos e comprovados, mudar convicções e hábitos, influir no rumo das instituições. Assim como o jornal forma a opinião pública, ele é formado por ela, que tem meios para influenciá-lo e pressiona-lo”.

 

Discussões
      
Os resultados dessa pesquisa mostraram que a Folha usou 23 fontes, enquanto o Estado utilizou 16. Desse montante, o primeiro veículo deu maior visibilidade as de impacto negativo, que representam 43% das declarações, indo de encontro com o que prediz sua linha editorial quando afirma que o jornal tem a necessidade de ter suas próprias convicções, embora não discrimine opiniões diversas. Já no segundo, 50% das fontes utilizadas são favoráveis ao evento, revelando, no mínimo, uma preocupação do jornal em manter sua imparcialidade quando aborda questões que geram polêmicas.
           
 Na Folha, analisando a matéria publicada de uma forma geral, percebemos que o início da abordagem é feito com uma fonte positiva, mas a declaração não trata da questão política do evento e parece nem ter qualificação para isso. Como comenta Paiva em seu artigo, o jornal valoriza o factual: “Somos 4 milhões!”.
           
Em seguida, temos outra declaração favorável ao evento, mas o impacto não cria gancho para uma discussão mais aprofundada sobre o tema. “Ela tem dois meses. Não tenho medo, a parada é de paz”, diz a mãe com a filha no colo.
           
E Todo o restante do texto segue essa mesma linha de abordagem, com a preocupação em mostrar o factual: “O evento que reuniu 3,5 milhões de pessoas, na Avenida Paulista”. Esse tipo de abordagem é facilmente identificado na seguinte matéria: “Parada Gay cresce; diversão e problemas, também”; “Organização calcula público de 3,5 milhões de pessoas; agressões e roubos atrapalham evento”. O discurso da Folha dá a entender que quanto maior a festa, maior a probabilidade de ocorrência de problemas.
           
No caso do Estado, apesar da maioria das fontes causarem impacto positivo com suas declarações, há uma deficiência, assim como na Folha, de fontes qualificadas para tratar da questão política do evento, ou outros assuntos pertinentes que tenham alguma correlação com ele. O título até sugere uma discussão aprofundada: “Religião foi o mote central da Parada Gay”. Mas o subtítulo já desfavorece a abordagem: “Visita do papa ao País inspirou figurinos e distribuição de camisinhas; evento reuniu pessoas de todas as idades”.  E de todo o texto, “Deus aceita a gente como a gente é”, do pastor Gelson Piber, foi a declaração de maior impacto, considerando a qualificação da fonte.
           
Quando publica declarações do tipo “Vamos gastar essas camisinhas”, mais uma vez o Estado perde a oportunidade de trabalhar a matéria maneira mais aprofundada. Seria sensato aproveitar o gancho e tratar de questões que ainda hoje são mitificadas pela sociedade e que de uma forma ou de outra favorecem o preconceito, mas o jornal prefere criar polêmica por meio de uma declaração, que solta, cria conotações comprometedoras ao grupo cujo objetivo é reivindicar direitos político-sociais.
           
Nenhum dos jornais se coloca, de maneira explícita, a favor ou contra ao evento.  Mas as construções textuais são questionáveis. Uma vez que ambos se declaram formadores da opinião pública, é inadmissível que tenham ficado para trás tantas oportunidades de um aprofundamento sobre o tema.


Referência Bibliográfica

BARBOSA, Gayleria: um estudo sobre o tratamento que a Folha de S. Paulo dispensa ao homoerotismo. 1998. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) – Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, SP, 1998.

Chiochetta, A. S; Avena, D. T. Parada Gay de São Paulo: Evento de Compromisso Social ou uma Grande Festa na Avenida Paulista? Eventos e Lazer: caderno virtual de turismo. vol. 6, nº. 2, 2006.

LIMA, T. P. Função social do bibliotecário: mediação da (des) informação. Londrina: 2004.

MANUAL Geral da Redação. São Paulo: Folha de S.Paulo, 1987.

MARTINS FILHO, E. L. Manual de Redação e Estilo. São Paulo: O Estado de S.Paulo, 1997.

MARQUES DE MELO, J. Estudos de jornalismo comparado. São Paulo: Pioneira, 1972.

MOTT, L. O lesbianismo no Brasil. Mercado Aberto, 1987.

Nussbaumer, G. M. Cultura e identidade gay: a diferença do múltiplo. In: Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 24., 2001, Campo Grande. Anais Eletrônicos... Campo Grande: Intercom, 2001.  

PAIVA, R. Cinco anos de pesquisa em Comunicação e Cultura de Minorias. In: Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 28., 2005, Rio de Janeiro. Anais Eletrônicos... Rio de Janeiro: Intercom, 2005.

REIS, R. A. Afeto entre iguais protegido em lei: os discursos dos leigos, dos especialistas e da mídia. In: Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 26., 2003, Belo Horizonte. Anais Eletrônicos... Belo Horizonte: Intercom, 2003.

ROSSI, C. O que é Jornalismo. São Paulo: Brasiliense,1988.

Tabosa, F. Ultra Equinoxialem Non Peccari: mapeamento, linguagem e mídia na Sodoma recifense. In: Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 25., 2002, Belo Horizonte. Anais Eletrônicos... Salvador: Intercom, 2002.

VIEIRA, N. C. Uso de informação como forma de amenizar os preconceitos acerca da homossexualidade. Londrina: 2005