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A Cobertura da Parada GLBT na Mídia Paulistana: André Luiz Leite das Dores
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Ao sensacionalizar o caso e tratá-lo como fato isolado, os jornais e os jornalistas deixaram de abordar o que realmente interessava – o homoerotismo no Exército e nas demais forças militares, que não o toleram enquanto expressão sexual. |
Estudos mais recentes mostram que a realidade não é muito diferente daquela comprovada por pesquisas feitas há dez anos. Raquel Paiva mostra, em seu artigo “Cinco anos de pesquisa em Comunicação e Cultura de Minorias”, que a abordagem da mídia, especificamente sobre a Parada Gay de São Paulo, continua superficial:
Todos abordaram o lado festivo do evento, o número de participantes, as presenças conhecidas, os shows, mas afinal, nenhum sequer apontava as reivindicações ou questionava o caráter político do evento. E mesmo o jornal A Folha de São Paulo, reconhecidamente um dos jornais de maior postura crítica do país, se recusou a esta abordagem. Sob o questionamento do seu ombudsman, o editor revelou que efetivamente a editoria deu prioridade à cobertura factual do evento (PAIVA, 2006, p. 35). |
Metodologia
Esta investigação se apóia na pesquisa bibliográfica e aborda aspectos quantitativos e qualitativos, metodologia ideal para a análise de conteúdos publicados em jornais, conforme orienta José Marques de Melo (1972), na obra Estudos de Jornalismo Comparado.
Análise Comparativa
ESTADO DE SÃO PAULO
Título da matéria: Religião foi o mote central da Parada Gay |
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Fonte |
Qualificação |
Declaração |
Impacto |
Gelson Piber |
Pastor |
“Deus aceita a gente como a gente é” |
Favorável |
José Ribeiro Fernandes |
Participante |
“Eu sou o papa do amor. Não vou morrer por não poder usar preservativos. Usem camisinha, irmãos” |
Neutra |
Camille André |
Transformista |
“É difícil ficar bonita a festa inteira, amor” |
Neutra |
Um rapaz |
|
“Vamos gastar essas camisinhas, vamos” |
Contrária |
Marcos Paulo da Silva |
Participante |
“Eu preferia quando a Parada Gay era mais política. Agora, fica essa molecada fazendo farra” |
Contrária |
Ricardo Moura Aguieiros |
Escritor |
“Idosos também são muito gostosos”. “Quem é idoso e gay sofre o dobro de preconceito. A gente vive nessa ditadura do bonito, do mais novo”. |
Neutra |
Dino Peres Martins |
Auxiliar de enfermagem |
“Sou a Penélope Charmosa dos gays. Sofri muito preconceito dos motoqueiros e agora sou assumidão.” |
Neutra |
Título da matéria: Protesto |
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Fonte |
Qualificação |
Declaração |
Impacto |
Cid Tavares |
Idoso |
“A gente adora. Pena que vamos embora antes do fim. Terceira idade tem de dormir cedo” |
Favorável |
Maria Teixeira da Silva |
Professora |
“Já estive em greve de professores, no impeachment do Collor, nas Diretas Já...” |
Favorável |
Luís Alexandre da Silva |
Dublê |
“Deus condena a prática homossexual” |
Contrária |
Nelson Matias Pereira |
Presidente da Associação da Parada do Orgulho GLBT |
“Essa é a Parada do amor” |
Favorável |
Título da matéria: |
|||
Fonte |
Qualificação |
Declaração |
Impacto |
Gilberto Kassab |
Prefeito de São Paulo |
"O Brasil está cada vez menos preconceituoso" |
Favorável |
Marta Suplicy |
Ministra do Turismo |
"Nossa cidade está mostrando cada vez mais que respeita as diferenças" |
Favorável |
Orlando Silva |
Ministro |
"Se o presidente Lula pudesse, ele estaria aqui conosco" |
Favorável |
Gilberto Kassab |
Prefeito de São Paulo |
"E a parada merece esse investimento" |
Favorável |
Gilberto Kassab |
Prefeito de São Paulo |
"A questão é de foro íntimo de cada um" "Não sou gay" |
Neutra |
Total de Fontes |
16 |
|
|
Favoráveis |
8 |
|
|
Contrárias |
3 |
|
|
Mistas e Neutras |
5 |
FOLHA DE SÃO PAULO
Título da matéria: Parada Gay cresce; diversão e problemas, também |
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Fonte |
Qualificação |
Declaração |
Impacto |
Leão Lobo |
Apresentador |
"Somos 4 milhões!" |
Favorável |
Luciana Soares |
Mãe |
"Ela tem dois meses. Não tenho medo, a parada é de paz" |
Favorável |
Amanda Salles |
Participante |
"Pela TV a festa parece ser bonita, mas ao vivo não dá para aproveitar." |
Contrária |
Amanda Cintra |
Participante |
"Já tem gente bêbada demais. Todo mundo passa a mão e agarra. Não curti nada." |
Contrária |
Título da matéria: "Nunca vi tanta gente feia", dizem habitués |
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Fonte |
Qualificação |
Declaração |
Impacto |
Victor Prado |
Estudante |
"Nunca vi tanta gente feia!" |
Contrária |
|
|
"hoje é freqüentada por pessoas que nem são gays". |
Neutra |
Ricardo Sá |
Administrador |
"Isso aqui está irreconhecível, olha só quanto mano" |
Contrária |
Emanuel Via. |
Professor |
"Acontece que isso aqui é um evento aberto, não precisa pagar nada. Então, não dá para controlar a freqüência" |
Contrária |
Mauro Scur |
Fotógrafo |
"Como vocês dizem aqui em SP, só tem periferia. Lá no Rio, a gente diria suburbano". |
Contrária |
Marcos Costa |
Maquiador |
"as "bonitas" são preconceituosas, não vêm mais. Então, a parada tomou outro rumo". |
Contrária |
Ronaldo Gomes |
Stylist |
"O problema é o baixo poder aquisitivo da maioria. Nem sempre aqui as pessoas são exatamente feias; às vezes são apenas mal tratadas. Presta atenção nos cabelos, nas peles..." |
Contrária |
Edson |
Gerente comercial na área de moda |
"o problema é que tem muita gente, e o número de feios é sempre maior. Aumenta na mesma proporção". |
Contrária |
Carlos |
Namorado de Edson |
"No máximo, 10% são bonitos". |
Contrária |
Roberto Oliveira |
Bailarino |
"Quem são eles para dizer alguma coisa?" |
Contrária |
Título da matéria: "Mais gay que eu" |
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Fonte |
Qualificação |
Declaração |
Impacto |
Tiago Lima |
Estudante de Engenharia |
"É um evento para todo mundo, véio. Tamos aí para ajudar os gays" |
Mista* |
Mateus Aguiar |
Radiologista |
""Isso aí" é mais gay que eu. É uma questão de tempo" |
Neutra |
Bruno |
Pofessor de educação física |
"A parada é pra todo mundo, gente feia, bonita..." "esquisita" |
Mista* |
Título da matéria: Organizadores do evento pedem apoio ao projeto que criminaliza a homofobia |
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Fonte |
Qualificação |
Declaração |
Impacto |
Nelson Matias Pereira |
Presidente da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo |
"Mais uma vez a gente vai fazer um grande evento. Infelizmente, a nossa visibilidade ainda não foi suficiente para reverberar em ações de políticas públicas. Ainda somos tratados como cidadãos de segunda"; |
Favorável |
Nelson Matias Pereira |
Presidente da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo |
"Estamos aqui para pedir apoio à lei importante que criminaliza a questão da homofobia", |
Favorável |
Toni Reis |
|
"Prefeito Kassab, nosso companheiro, queremos que o senhor peça aos senadores que votem favorável" |
Favorável |
Gilberto Kassab |
Prefeito da Cidade |
"A parada merece" |
Favorável |
Marta Suplicy |
Ministra do Turismo |
disse que falta "vontade política" dos parlamentares para aprovar leis que melhorem as condições dos gays. |
Favorável |
Vinicius de Carvalho |
Chefe de gabinete da Secretaria Especial de Direitos Humanos |
disse que a União planeja organizar uma conferência de políticas públicas para GLTB. |
Favorável |
Total de Fontes |
23 |
Favoráveis |
8 |
Contrárias |
11 |
Mistas e Neutras |
4 |
|
FOLHA DE SÃO PAULO |
ESTADO DE SÃO PAULO |
Total de Fontes |
23 |
16 |
Favoráveis |
8 |
8 |
Contrárias |
11 |
3 |
Mistas e Neutras |
4 |
5 |
Linhas editorias
Tanto a Folha quanto o Estado defendem, em seus manuais de redação, a imparcialidade, a objetividade, a pluralidade, bem como condenam a discriminação das minorias étnicas, religiosas, sexuais, políticas ou de qualquer outro tipo.
O Manual de Redação do Estado (1997) sugere: “Faça textos imparciais e objetivos. Não exponha opiniões, mas fatos, para que o leitor tire deles as próprias conclusões. [...] Lembre-se de que o jornal expõe suas opiniões nos editorias, dispensando comentários no material noticioso”.
Do ponto de vista da formação da opinião pública, o Manual de Redação da Folha (1987) ressalta: “Apoiado em fatos e dados exatos e comprovados, mudar convicções e hábitos, influir no rumo das instituições. Assim como o jornal forma a opinião pública, ele é formado por ela, que tem meios para influenciá-lo e pressiona-lo”.
Discussões
Os resultados dessa pesquisa mostraram que a Folha usou 23 fontes, enquanto o Estado utilizou 16. Desse montante, o primeiro veículo deu maior visibilidade as de impacto negativo, que representam 43% das declarações, indo de encontro com o que prediz sua linha editorial quando afirma que o jornal tem a necessidade de ter suas próprias convicções, embora não discrimine opiniões diversas. Já no segundo, 50% das fontes utilizadas são favoráveis ao evento, revelando, no mínimo, uma preocupação do jornal em manter sua imparcialidade quando aborda questões que geram polêmicas.
Na Folha, analisando a matéria publicada de uma forma geral, percebemos que o início da abordagem é feito com uma fonte positiva, mas a declaração não trata da questão política do evento e parece nem ter qualificação para isso. Como comenta Paiva em seu artigo, o jornal valoriza o factual: “Somos 4 milhões!”.
Em seguida, temos outra declaração favorável ao evento, mas o impacto não cria gancho para uma discussão mais aprofundada sobre o tema. “Ela tem dois meses. Não tenho medo, a parada é de paz”, diz a mãe com a filha no colo.
E Todo o restante do texto segue essa mesma linha de abordagem, com a preocupação em mostrar o factual: “O evento que reuniu 3,5 milhões de pessoas, na Avenida Paulista”. Esse tipo de abordagem é facilmente identificado na seguinte matéria: “Parada Gay cresce; diversão e problemas, também”; “Organização calcula público de 3,5 milhões de pessoas; agressões e roubos atrapalham evento”. O discurso da Folha dá a entender que quanto maior a festa, maior a probabilidade de ocorrência de problemas.
No caso do Estado, apesar da maioria das fontes causarem impacto positivo com suas declarações, há uma deficiência, assim como na Folha, de fontes qualificadas para tratar da questão política do evento, ou outros assuntos pertinentes que tenham alguma correlação com ele. O título até sugere uma discussão aprofundada: “Religião foi o mote central da Parada Gay”. Mas o subtítulo já desfavorece a abordagem: “Visita do papa ao País inspirou figurinos e distribuição de camisinhas; evento reuniu pessoas de todas as idades”. E de todo o texto, “Deus aceita a gente como a gente é”, do pastor Gelson Piber, foi a declaração de maior impacto, considerando a qualificação da fonte.
Quando publica declarações do tipo “Vamos gastar essas camisinhas”, mais uma vez o Estado perde a oportunidade de trabalhar a matéria maneira mais aprofundada. Seria sensato aproveitar o gancho e tratar de questões que ainda hoje são mitificadas pela sociedade e que de uma forma ou de outra favorecem o preconceito, mas o jornal prefere criar polêmica por meio de uma declaração, que solta, cria conotações comprometedoras ao grupo cujo objetivo é reivindicar direitos político-sociais.
Nenhum dos jornais se coloca, de maneira explícita, a favor ou contra ao evento. Mas as construções textuais são questionáveis. Uma vez que ambos se declaram formadores da opinião pública, é inadmissível que tenham ficado para trás tantas oportunidades de um aprofundamento sobre o tema.
Referência Bibliográfica
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ROSSI, C. O que é Jornalismo. São Paulo: Brasiliense,1988.
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