![]() |
Sobre TítulosProfa. Dra. Miriam Bauab PuzzoEm artigo publicado no jornal ValeParaibano do dia 21 de maio passado, o articulista trata do excesso de encargos que pesam sobre os ombros do cidadão brasileiro, sem que haja retorno equivalente em benefícios que lhe são direito, tais como os referentes à saúde, educação e segurança. O comentário pertinente ao momento dramático que atingiu a sociedade, vítima de ataque desenfreado de delinqüentes e presidiários unidos por uma rede organizada, tem um título bastante sugestivo, embora não esclareça sobre o assunto tratado no texto, exigência comum ao padrão noticioso. Vale a pena observar o título com mais vagar, já que trata de duas informações contrapostas, empregando para isso um período composto unido por uma conjunção de natureza adversativa. As duas informações encontram-se num mesmo nível de importância que se deve à construção sintática que privilegia a coordenação. Como o próprio nome diz,os compostos por coordenação atribuem valor igual às duas informações que compõem o período, ao ato de pagar contrapõe-se, portanto, o equivalente de receber. Nota-se que construções de natureza coordenada devem manter o equilíbrio nas duas proposições, ou seja, nos dois segmentos unidos pela conjunção, que neste caso é a conjunção adversativa mas. Sendo assim, os verbos apresentam-se em tempo e modo verbal idênticos, presente do modo indicativo: paga, leva. A essa construção equilibrada denomina-se paralelismo. É ela a responsável para manutenção do equilíbrio proposto por essa estrutura sintática, mantendo em paridade as duas informações sem que nenhuma se sobreponha a outra. Não é o que ocorreria, por exemplo, se o título fosse: Embora pague,não leva. Neste caso, o fato de não levar seria a gerenciadora da construção e o ato de pagar estaria em função secundária, portanto, sem relevância. Haveria desse modo uma hierarquização nos atos de pagar e receber, destacando um aspecto em detrimento de outro. O que podemos deduzir desse comentário é que as escolhas que o redator faz, quanto a organização sintática no ato de escrita, não são inconseqüentes, mas expressam um modo de percepção do real. Neste artigo especificamente ao ato dfe pagar deveria gaver o correspondente receber – levar – que não ocorre. O título muito bem escolhido expressa, portanto, o não cumprimento dessa expectativa de receber, que seria a conseqüência normal do ato de pagar, ficando o cidadão brasileiro na posição de otário diante de um governo usurpador de seus direitos. Merece ainda algum destaque o fato de as iniciais de cada palavra virem em caixa alta, o que contraria as regras gramaticais de emprego de maiúsculas. Entretanto, obedece ao formato instituído pelo jornal que o próprio nome transgride tal regra ao usar a maiúscula P em ValeParaibano. |