![]() |
Equidade JornalísticaProf. Ms. Marcelo Pires de OliveiraEste artigo pode parecer um tanto reacionário em época de Severinos, Genoínos e Palloccis, mas não pretendo aqui defender este ou aquele e sim abordar um dos aspectos da ética profissional do jornalismo que preconiza que em uma matéria jornalística devem estar presentes todos os atores de um fato noticioso. O que pretendo abordar é a forma como a imprensa em geral trata as acusações contra qualquer cidadão neste país, e quem sabe, no mundo. A norma jornalística, segundo aprendemos na escola, diz que em uma matéria envolvendo pessoas todos os atores do fato jornalístico devem ter o direito de fornecer sua versão da história. Entretanto, o que vemos em muitas matérias é a valorização de apenas um dos lados do fato, e quase sempre as fontes oficiais e ou policiais, o que, de certa maneira, causa um pré-julgamento por parte da opinião pública prejudicando ao longo da apuração dos fatos a construção de uma segunda versão. Mais uma vez cabe ressaltar que em época de CPIs e denuncismos contra tudo e contra todos, a imprensa no afã de executar seu dever de informar e com a tosca desculpa da pressão do deadline (Pierre Bourdieu em seu livro “Sobre a Televisão” diz que isso não justifica a ausência de uma reflexão crítica sobre o fazer jornalístico e da necessidade da verificação da veracidade e idoneidade das fontes) não julga as consequências e nem o impacto das notícias que divulga sem permitir uma contra-argumentação, especialmente por parte do acusado ou de algum de seus defensores. Como exemplo prático do que estou argumentando não posso deixar de recordar o episódio acontecido em 1992 cidade de São Paulo que ficou conhecido como “Escola Base”. Naquela ocasião duas mães acusaram os proprietários da escola infantil de molestarem seus filhos e o delegado munido apenas das acusações e sem nenhuma prova prendeu e anunciou à imprensa seu feito. Os acusados, presos e incomunicáveis, não puderam conceder entrevistas e fornecer sua versão,e nem puderam indicar advogados que falassem à imprensa em seu nome. Com isso a imprensa construiu a notícia apenas com a versão do delegado que a cada dia concedia de duas a três entrevistas, sempre com fatos novos e cada vez mais graves. Ao final de alguns dias a promotoria descobriu que as acusadoras não possuiam nenhuma evidência e que as crianças “vítimas” não tinham histórias consistentes e decidiu arquivar o caso por ausência de provas. O saldo desta história foi a falência dos empresários, o fim de um casamento e uma fraca e tímida desculpa por parte de uma única emissora de televisão que teve a ombridade de, publicamente, se desculpar, pois os outros órgãos de imprensa tão ávidos por declarações do delegado sequer ouviram os empresários libertados que dias antes foram arrancados de suas casas e que no final saíram da porta da delegacia de madrugada e sem nenhum refletor. Lembro deste fato emblemático para destacar o comportamento da imprensa diante de notícias bombásticas e que apesar de distante no tempo parece não ter servido de lição para os órgãos de imprensa, que continuam a reproduzir o comportamento sangunolento de ouvir primeiro e, as vezes, unicamente os acusadores, abafando a oportunidade de defesa dos acusados. Esta atitude irrefletida e enraivecida pode em alguns momentos ser justicável diante de casos extremos de crimes hediondos e graves escândalos, mas acredito que a imprensa enquanto agente de informação deveria exercer seu papel com a equidade que os manuais de jornalismo tanto pregam para que injustiças e pré-julgamentos venham, mais uma vez, a destruir vidas humanas que depois das luzes sobre os acusadores ofusca os direitos de cada cidadão de alegar sua inocência e inverte a responsabilidade da produção das provas. Ao invés do acusador ter que fornecer as provas de suas acusações é o acusado que deve fornecer as provas de sua inocência. |